Prosa Poética Como é – Dueto de Cores Nuas – Livro de Bacellart

Prosa Poética Como é –

Uma amostra de prosa poética como é; através do livro, Dueto de Cores Nuas, de Bacellart

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“Ainda há tempo para poesia na literatura contemporânea brasileira”: 

Michele Lima Nery, mestre em literatura, PUC-SP. Livro de sua autoria

 

     Muitos estudos tratam da natureza da literatura contemporânea no nosso país; tal fato se dá por conta da variedade do caráter estético das obras produzidas em nossa época. Tema: Prosa  Poética Como é.

     Questões como o desaparecimento do narrador e a mudança no perfil do herói no romance têm sido bastante cotejadas pela teoria e crítica da literatura. No entanto, pretendo tratar, neste artigo; do sopro poético que notamos na prosa de Cláudio Bacellart em “Dueto de cores nuas” publicada  em 2013.

     Tal texto compõe um retrato da qualidade literária que nossos autores apresentam, ainda que muitos deles no anonimato. Elementos estilísticos como a sinestesia de alto padrão, o neologismo e a criação de substantivos a partir de verbos e o hibridismo do gênero são só algumas das surpresas  que o leitor encontra ao nas veredas do texto.

     A fim de direcionar melhor o trabalho, apresentarei a construção da poesia na prosa e, para tal empresa, acompanharei junto ao leitor os efeitos, as sensações e a recepção da poesia de Bacellart ao longo da referida narrativa.

     É interessante notar que, logo no prefácio do livro, o autor faz uma referência interessante sobre a construção do tecido narrativo. Vejamos:

Nota do autor:

     No livro existem várias “aparições-poemáticas”: algumas na forma de versos no meio do capítulo, outras na intersecção entre os contos, frases com palavras híbridas ou sensações descrevendo fatos, objetos, enfim. A interpretação do que seja poético, pode ser subjetiva, fica à sua escolha. (Bacellart, 2013, p.05)

     Neste excerto, o autor apresenta ao leitor a natureza do seu texto e, neste contexto, fala da poesia que deve permear o texto narrativo dos contos por meio de intersecções.

     Dessa maneira, ao tratarmos da questão do gênero literário temos aspectos importantes como o hibridismo ou sincretismo do texto que; além de apontar para uma interessante relação entre romance e conto, trata também da mistura entre a prosa e a poesia. Para tanto, o autor nos apresenta um recurso notável que já estruturou a teoria da poesia de artistas como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, o interseccionismo.

     O recurso do interseccionismo:

     No movimento moderno português, veiculado por publicações como “Orpheu”, revista dirigida por Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa; consistia em misturas vários planos na construção dos fios que compõem a a poesia e a prosa poética. Conceituando o interseccionismo, Dieter Woll diz o seguinte:

     No sentido mais restrito, a palavra designa a técnica da intersecção, de várias esferas ou de vários aspectos de um mesmo objeto numa poesia; processo esse, portanto, que tinha a sua origem, quer em teorias cubistas da pintura, quer em teorias futuristas da literatura. (Woll, 1968, p. 38)

     De acordo com o crítico, compreendemos, mais adequadamente, a acepção do conceito de intersecção, que consiste na inter-relação entre vários planos distintos: sonho, realidade, poesia, prosa, conto e romance. Assim, no mesmo corpo textual temos a riqueza do hibridismo que ocorre simultaneamente em todos os fatores mencionados.

     Prosa Poética Como é: Imprescindível notar que, ao entrarmos em contato com o texto de Bacellart, essas várias esferas interseccionadas produzem uma espécie de ampliação das sensações das personagens e do leitor, uma vez estabelecido o pacto de leitura.   E é por meio desse procedimento que poesia vai urdindo a fiação das narrativas contidas em cada um dos contos e do conjunto dos contos entre si.

     Vejamos como se dá tal processo logo na apresentação das personagens – 

Prosa Poética Como é

Pétala e Branco

     Casal traçado por graves e agudos diferentes, desenhados para saborear o som dos instantes. Pincelados pela vida na tela do tempo, rasgados do mundo, forasteiros sem retorno. Esboçados no vão entre o violeta e o alaranjado. (Bacellart, 2013, p. 9)

     Neste primeiro capítulo, é possível notar a natureza da poesia que irá nascer ao longo da obra; uma vez que a apresentação inicial das duas personagens protagonistas do romance (ou coletânea de contos); se faz por meio de um refinado processo sinestésico que envolve cores, imagens, paladar e música. Dessa forma, o contato inicial do leitor com as personagens se faz por meio da sensação. Não se trata de uma entrada apenas na narrativa por meio do “contar”, mas também e, principalmente, do “sentir”. Tal aspecto torna mais íntima a relação entre a obra e o leitor, pois proporciona que ambos compartilhem sensações.

     É interessante notar que a sinestesia já nasce nos nomes das personagens: Pétala e Branco. No caso da mulher, é evidenciada a delicadeza e fragilidade do feminino e no caso do homem, enfatizasse a visão como algo concreto, determinante para o universo masculino.

Mais adiante temos:

     “Branco necessitava de uma habitação arvorada em pesada raiz, Pétala, de uma tenda leve para seguir os passos do vento. Como tonalizar esse descompasso?”

     Na situação inicial da narrativa, são apresentadas características do mundo interior de cada uma delas que podem ser sintetizadas na analogia: terra e ar.

     Assim sendo, constitui-se uma relação entre Pétala e Branco que se desenvolverá ao longo da obra, vezes como par antitético e vezes como complementariedade. A complexa relação entre o par amoroso vai sendo construída por meio de sinestesias entre música, cores, olfato, entre outros. Logo, temos uma poesia que tem sua função poética, mas que, ao mesmo tempo, está a serviço da produção do tecido narrativo.

     Prosa Poética Como é: dando sequência à leitura, é possível depreender mais do sabor da poesia que envolve a obra:

     Conseguiram carona na caçamba de um utilitário. No trajeto começa a chover: ela adora chuva. E aconteceu que nada foi falado, mas tudo feito, naquele piso de madeira enrugado e sujo de barro. Lubrificados de suor saliva chuva lágrimas e sêmen. (Bacellart, 2013, p.10)

    Prosa Poética Como é:

     O leitor assiste a uma cena cinematográfica que permite ver e sentir as sensações do encontro amoroso e sexual do casal. Os elementos apresentados em uma espécie de gradação são cuidadosamente inseridos no texto sem o uso de vírgulas; como é comum, sendo assim, é possível ao leitor perceber esses aspectos num plano simultâneo, como numa cena de cinema.
     A narrativa toda se compõe na delicadeza de um “dueto”, como o próprio título indica, tal par se dá entre a prosa e a poesia; o casal Pétala e Branco, o ar (Pétala) e a terra (Branco), os movimentos musicais como prelúdio e poslúdio e, por fim e encantadoramente, entre o leitor e o texto que, juntos, constroem a canção dos sentidos produzidos pela obra.

     O processo da construção poética em meio à prosa se dá em vários momentos como nos títulos de cada conto ou capítulo; por exemplo em: “Mel de Lua”, em que temos uma peculiar inversão da expressão “lua de mel”; e, principalmente, nos momento nos quais se narram a singularidade e a beleza dos momentos nos quais a casal vivenciam a natureza de seu amor.
     “Branco acaricia o braço dela, devagarinho, mal o tocando, apenas virando os pelos”.
     

Sinestesia:

     É possível sentir a fragilidade do toque ao lermos o verso. Uma singela sensação de tato a partir da qual temos uma representação do amor que envolve o par.
     Por outro lado em construções como “sentiu a cólera tomando seu corpo, arrepio que começava nos pés e irradiava por todas suas entranhas, infecciosa doença que o invadia”; a metáfora permite uma significativa sinestesia que, mais uma vez, compartilha as sensações das personagens com o leitor.

     Prosa Poética Como é: em outros momentos do “dueto”, temos a transcrição integral de poesias que as personagens escrevem a fim de expressarem seus sentimentos em relação a si mesmos e ao outro. Nesse âmbito, ocorre o que na teoria da literatura chamamos de hibridismo do gênero, a poesia entra na narrativa e toma seu corpo. Tal processo se dá não só na linguagem, mas também na forma do texto que vem cuidadosamente marcado pela mudança da fonte da letra.

Na chuva,
Gosto de arrancar meu vestido,
ficar nua inteiriça e rodopiar
num desenho abstrato e sem amarras.
Respiro profundo e solto sons abstratos

     Prosa Poética Como é: o leitor desvela um pouco do mundo interior de cada personagens, como vemos no excerto poético de Pétala. No entanto, a intervenção poética não ocorre somente nesses momentos; o autor insere, ao longo do texto, instantes poéticos que estão correlacionados ao desenvolvimento da narrativa, construção poética em si e, até mesmo, na caracterização do espaço, como vemos a seguir:

Nosso batismo
Cruz/cial,
sobre pétalas brancas
castiçamo-nos

     Prosa Poética Como é: para apresentar o instante do encontro, Bacellart apresenta uma poesia que permite a visualização da cena; inscreve as personagens e constrói a leveza de um tato delicado, ligado à própria natureza do sentimento narrado.
     Ao longo do texto, temos diversos momentos poéticos nas quais o leitor se torna testemunha; cúmplice e expectador de cinema e partir dos quais passa a ser parte do mundo sinestésico tecido, pintado e orquestrado magistralmente pelo autor.

     Sendo assim, temos uma prosa poética de alta qualidade que se faz entre os elementos da narrativa como tempo e espaço, na apresentação cênica das sensações e na fragilidade do tato. Para nossa produção literária, esse tipo de texto comprova a qualidade de autores que, ainda são muitas vezes iniciantes, mas não menos geniais que os grandes nomes que temos, felizmente, na história da nossa literatura.
     Graças a isso, nos corredores dos prédios, nas ruas dos grandes centros, ainda há tempo para poesia na literatura contemporânea.

Dr. Osório Sobrinho: texto em seu Blog

     Dicona de leitura: fui presenteado pelo Beto com um livro de um amigo dele numa noite dessas, claro que fiquei entusiasmado, pois o presenteador sabe do meu vício por livros. De cara já gostei da capa e do título em especial o subtítulo. Trata-se do livro Duetos de cores nuas (Existência em Prosa Poética), de “autonomia” de Claudio Bacellart!

     Meio sem tempo e com outras leituras na fila de espera, não iniciei imediatamente a leitura do “Existência em Prosa Poética”, infelizmente!

     Infelizmente por não saber o que estava perdendo!

      Eis que num início de tarde inicio a leitura. Gosto, mas muito sono me faz dormir na primeira página, creio. “Melhor dormir e depois recomeçar”, pensei e assim o fiz. Resultado, fui dormir às três da madrugada tendo lido até a página 107! A curiosidade (querência) pedia mais, mas o corpo e o dia seguinte não permitiam. Dormi e, no dia seguinte, cheguei ao final na página 170!

O livro é uma montanha russa!

     Tem horas que nos leva a vertigem, mas sempre com uma poesia prosada muito encantadora.

     A dedicação de um homem a uma mulher é encantadora, somada ao sonho, à liberdade, à poesia e à música!

     Sem falar do rio, não o de Janeiro, mas o rio mesmo, de água, pelo qual o autor demonstra uma queda seminal!

     Mas melhor que vocês mesmos confiram e tirem suas conclusões que, com certeza, não serão decepcionantes nem de que foram enganados por este leitor entusiasmado.

     Antes, vejam algumas coisas/imagens grafadas que pincei do conjunto, que é todo digno de transcrição; mas que não vou fazê-lo para que todos descubram por si mesmos esta obra prima do Claudio que tem art até no Bacellart.

Prosa Poética Como é – Primeira Orelha

Com o casal Pétala e Branco, através e por causa deles, somos conduzidos à experiência ímpar de vivenciar várias personagens: seremos caseiros, pintores, musicistas, escritores, internos de um convento, trapezistas, guerrilheiros, institucionalizados e ‘passageiros’ de trem; também expecta-dores da beleza trivial do cotidiano e faremos morada nos vários significados do que é ‘Casa’.

No livro há uma ‘inter-independência’ entre os capítulos. A escolha aleatória entre eles, antes ou depois de finalizada a leitura, proporciona compreensão do enredo e temas aborda-dos. E, a possibilidade de eleger alguns capítulos para revivê-los, realmente me deixou surpreso: constitui-se em mais um elemento de prazer, reflexão e inediticidade.

Devido à natureza do estilo adotado, prosa poética, algumas palavras foram grafadas fora dos padrões convencionais. Isso cria, para nós leitores, um aprofundamento do gosto pelas ‘Letras’, ao mesmo tempo que lhes amplia os sentidos e as percepções. Efervescente!

     Leonardo Stocco – Didático em Artes: MASP – Psicólogo.

 

2ª Orelha

Pél. e Bran formam um casal como qualquer outros autor jamais imaginou. C. Bacellar sabe levar o leitor a tornar-se íntimo desses personagens adoráveis. Aqui, cada capítulo poderia ser um romance; em cada detalhe dá mais sentido a história.

Betty Vidigal – Escritora.

 

Contracapa

O livro, cuidadosamente esculturado em prosa poética, narra as dificuldades dos protagonistas, Pétala e Branco, para conciliarem seu estilo de ser, desprovido das formalidades cotidianas, com a “realidade”, que exige assimilação e adequação, e que se impõe concreta e pragmaticamente.

A obra inova ao costurar capítulos independentes que, em razão da forte ligação do casal, resultam numa história unifi-cada. Isso facilitou a releitura dos “contos” mais impactantes.

Pél e Bran experimentam diversos rompimentos e reconciliações. O excesso de paixão culmina com o desgaste da convivência, o que os afasta; a distância, por sua vez, resulta em angústia quase insuportável, o que os reaproxima.

Como condenados, permanecerão dependentes desse processo? Ou vão amadurecer e seguir caminhos distintos?

‘Dueto’ explora as possibilidades da linguagem, para além de suas definições. Como leitora, fui conduzida, pelo autor, para a liberdade das inesgotáveis formas de sentir e interpretar. Essa vivência me tocou profundamente.

Agradecimentos

 Minha esposa – Psicanalista, revisão crítica final.

Betty Vidigal – Escritora, por me acompanhar de perto.

Mia Couto – Escritor, pelo Incentivo.

Prosa Poética Como é; extraído do ensaio da critica literária, Micheli Nery.

Livro de Bacellart

Prosa Poética Como éLivro Dueto de Cores Nuas