Carência e Bullying:

Mitos:

       Gostaria de trazer outra frase comum: “quem não se ama*, não ama o outro”: *(visto como quem tenha baixa estima). Em duas décadas de atendimento como psicólogo, além de convívio com amigos e familiares, nunca vi isso acontecer. Sempre vejo o contrário: um indivíduo de baixa autoestima amar muito o outro, formar família e bom ciclo de amizades. Exceto, claro, aqueles que se entocam, como defesa. Enfim, esse amor pode ser dependente, muito carente, ainda assim é amor. 

     Pior sentimento que alguém pode sentir pelo outro, é pena – mais que ódio: Essa é bem fácil de demonstrar, quem sente ódio, prejudica; quem sente pena, cuida. Ou seja, como um cachorro com fome na rua, quem sente ódio dele, dá uma massa de pão com alfinetes dentro (vide Dostoievski), quem sente pena o presenteia com água e comida. Pena significa misericórdia, compaixão

     Esse tipo de crença geralmente diz respeito a uma pessoa que tem uma baixíssima autoestima. Receber ajuda de alguém pode ser pior do que ser odiado, pois a situação de estar mal a deixa numa posição de “inferioridade” (ao menos é assim que se sente mais ainda); caso alguém sentisse pena por ela, seria uma espécie de confirmação da “superioridade” do outro (como sentiria a situação), ou seja, uma confirmação (devido sua baixa autoestima) que realmente vale pouco; enfim, algo insuportável.

     Nos valores sociais mais disseminados, sobretudo com a vinda da internet, tv a cabo e smarthphone, observo que é visto como comum e possível ter um excelente emprego; companheiro amoroso maravilhoso , corpo espetacular e bens materiais de alta qualidade. Nessa era da hiper-competitividade e, ampla exposição de personalidades que se destacaram em determinado ponto; como um músico ou esportista, fica cada vez mais difícil ao indivíduo ter uma referência mais humana e viável para suas possibilidades, sentir que tem uma vida boa dentro do que realizou, ou que está em projeto. Assim, nesse mundo mágico ideal, em que o indivíduo perde sempre, é preciso cuidado para separar esses valores contaminantes.

 

O Auto-Exílio e a perda de si nos outros:

     Nesse tempo cuidando dos analisandos, vi claramente que; por vezes, o indivíduo que se acredita menor, pode sentir-se mais à vontade em uma espécie de auto-exílio; afastando-se por entender que sua identidade está ameaçada em seu valor, e também para distanciar-se dos valores sociais que o oprimem. Seja só ou no círculo de pessoas queridas; e/ou unindo-se a grupos que criticam muito o mundo e o estilo de vida da sociedade; dos vencedores entre aspas, o indivíduo pode, nesse exílio, encontrar um certo conforto. Ele sente que seus valores são melhores; critica os dos outros, é enfim aceito, pois encontra ressonância de sua existência nos parceiros de seu grupo. É esse indivíduo em especial, que pode ter comportamento arrogante; mas que se intitula de personalidade forte ou com orgulho, que tem dificuldade para submeter-se a uma Psicoterapia.

     Já no afastamento de si mesmo e absorção dos valores dos outros, que é o movimento oposto ao descrito anteriormente; ocorre a necessidade de adotar os gostos que considera importantes em seu meio, para garantir a aprovação dos demais, assim como de si para consigo mesmo, evidentemente sem estar consciente desse movimento. Desconsiderando o que é sua preferência autêntica, seu gosto pessoal; como um camaleão, absorverá e se adaptará às atitudes do grupo que convive, e terá em seu discurso social aquilo que é garantia de ser bem aceito; frases “incontestáveis” como ‘família é tudo’, apesar de muitas pessoas se dedicarem muitíssimo mais ao trabalho e/ou ao lazer. Chegará a ter afeto por personalidades em destaque, gostar de determinado estilo musical bem visto no momento, ou seja, que estão em destaque pelos meios de comunicação em seu tempo presente.

     Tanto a baixa autoestima, quanto a alta autoestima, são importantes de serem cuidadas. Através de uma boa psicoterapia, onde o analisando leve a sério a psicoterapia, em um encontro confiante e à vontade, ele poderá ampliar seu autoconhecimento; pontos de sua maturidade que não se desenvolveram bem, e assim viabilizar uma autoestima saudável.

 

Bullying e Autoestima –

Molestar/intimidar, analisarei sob o ponto de vista de uma tortura que perdura por anos e com frequência:

     O “famoso” bullying escolar, pode acontecer até pior; se for em casa com os pais, irmãos e outros familiares; além de com “amigos” que se convive. Quando o bullying é feito em casa numa criança, o terror desta é muito maior do que na escola; visto que o bullying ocorre todos os dias do ano, em todos os momentos que lá estiver e desde mais cedo do que na escola; e isso tem forte influência na autoestima.

      Todos analisandos que eu tive que sofreram bullying, tiveram afetada fundamentalmente sua autoestima. O sentir-se, ver-se, entender-se, passa a ficar menor em relação aos outros. Resumidamente (confira minha entrevista e artigo sobre autoestima), a pessoa passa então a ficar com receio de se expôr, com receio de julgamentos, tentando agradar aos outros e fazer tudo da melhor forma possível, para ter mais chances de ser bem aceita.

     Imagine o clássico exemplo de uma criança que sempre recebe críticas em casa por tudo que faz; vai à escola, tenta conquistar a melhor nota nas disciplinas e escuta em tom crítico “nove não é dez”, “não fez mais que a obrigação”, “quero ver ano que vem”, “tirou dez mas o guarda-roupa não está bem arrumado, que adianta?”. Naturalmente esse bullying vai afetar profundamente uma criança em fase de formação de seu EU, inclusive pré e adolescência.

 

Bullying e Autoestima – a formação da identidade:

     A questão que quero ressaltar, é que a criança ou até o adolescente; não dispõe de uma boa estrutura emocional para defender-se do bullying. Por diariamente sentir-se, escutar, sofrer ofensas, com o passar do tempo vai-se absorvendo a crítica, por exemplo “preguiçosa”, até o ponto de racionalmente a pessoa verdadeiramente acreditar nisso. Até mesmo se uma menina era obesa na pré-adolescência, cresceu, emagreceu e é muito bonita, ainda carrega essa sensação de si mesma; sua autoestima, seu valor pessoal, como se vê perante a vida.

     Uma criança não tem a maturidade, que frente a uma situação de bullying se manifestar da seguinte forma: “Caro colega, você está me maltratando e não pode fazer isso, se continuar com isso, serei obrigada a reportar a direção da escola”; ou pensar consigo mesma: “que pena que você tem essa opinião preconceituosa e mesquinha a meu respeito por não representar o padrão de beleza bem visto atualmente”. Esse é o grande problema, a criança absorve profundamente o que a recriminaram e, passar a pensar somente coisas ruins a seu respeito, não acreditando que tenha pontos bons.

     Assim na formação de seu EU/personalidade, sua autoestima não se desenvolve em nível saudável; levando-a a se sentir aquém, em autoestima baixa.

 

Questão Base: Lembre que a imagem que tem de si foi construindo no tempo por problemas externos, que não correspondem a verdade.

 

Please rate this