A Liberdade é Azul Kieslowski Crítica Análise – Bacellart

A Liberdade é Azul Kieslowski Crítica análise

A Liberdade é Azul Kieslowski Crítica Análise

Crítica (apreensões) sobre o filme Kieslowski  

     Sou psicólogo clínico e escritor. Sei o quão problemático é a análise de uma obra artística; pois é comum: 1) especular/intelectualizar sobre o que teria levado o artista a fazer/realizar certas escolhas em sua obra (modelo Cartesiano de causa e efeito); 2) vinculá-lo a outros artistas consagrados (despersonalizando-o). Então, a proposta aqui em ‘A Liberdade é Azul Kieslowski Crítica Análise, será basicamente de relatar como me senti com o filme.

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    Na primeira situação, isso obedece a nossa tradição metafísica de apreender o mundo, fazendo suposições cartesianas/racionais, ‘dos porquês’ de tudo. Francis Ford Coppola, quando entrevistado, foi questionado sobre o motivo de ter finalizado determinado filme com pretzels; o entrevistador citou inclusive teses acadêmica que indicavam o motivo de Coppola ter agido assim; o diretor respondeu “era minha ideia de felicidade quando criança e isso me fez finalizar o filme”. Trabalhos universitários de mestrado e/ou doutorado, feitos por anos… Esse tipo de mensuração técnica de uma obra de arte, da sua vivência com ela; deixa para ambos, obra e indivíduo, uma redução do que poderia vir a ser.

   Na segunda situação, também tem a ver com nossa necessidade e aprendizado social, para classificar tudo e assim nos sentirmos confortáveis. É mais fácil relacionar um autor novo com algum consagrado, mesmo que este novo autor apresente originalidade/surpresa (seu Eu único). Até com autores maravilhosos, como Mia Couto, precisa de paciência para a cada entrevista no Brasil escutar que seus escritos provavelmente vieram de Guimarães Rosa. Isso leva a um certo ‘enfraquecimento’ do autor.

     Na minha atuação clínica, convocado pela visão da filosofia fenomenológica; me deixo em abertura para ser tocado por aquele acontecimento que vivencio, o analisando. Essa proposta de estar vivendo, em abertura, vai também para a vida de modo geral, e aqui para o filme Trois Coleurs; Bleu, A liberdade é azul, de Kieslowski. Talvez o mais aclamado do diretor, considerado um dos maiores filmes no final do século XX, com a maravilhosa participação de Juliette Binoche; intensa música e bela fotografia.

A Liberdade é Azul Kieslowski – Crítica Análise:

     A personagem vivida por Binoche, após perder o marido e a filha, (deixando-a depressiva); não ter vínculo com familiares ou profissionais, também dispõe de valor para suas despesas; assim, dedica-se a nadar e a “apenas” viver, como disse Kieslowski sobre o que faria em sua aposentadoria. Julie (Binoche), dispõe de “Liberdade”, no sentido de várias possibilidades de escolhas, sem as amarras de vínculos afetivos e de outras atividades que não seriam de seu interesse, como trabalhar em algo que não quer.

     Julie está muito melancólica, em depressão, há uma certa expectativa/cobrança/surpresa/estranheza de alguns personagens que ela interage, para que tenha alguma atividade produtiva; por fim, Julie se envolve com a composição de seu marido e com um amigo. Kieslowski apresenta um filme sensível, “caseiro” no sentido de próximo a como somos no dia-a-dia; e sem apresentar soluções de ter de ser um referencial de personagem que supera uma tragédia com muita garra; como sua personagem, o filme “apenas” vive e é!

Sobre a questão da ‘liberdade’:

     Essa possibilidade de muitas escolhas, de fato, traz uma sensação de liberdade muito agradável. Liberdade aqui entendida como maiores possibilidades para agir segundo sua vontade; contudo, não é uma liberdade-potência de poder tudo (como gostaríamos); afinal temos limitações básicas como a amarra de não poder escolher não sentir sono, sentido de vida, emoções; e muitas outras como diria o filósofo Schopenhauer “você até pode realizar o seu desejo, mas não determina-lo” ou seja pode dar certo seu intento de namorar certo rapaz, mas não escolheu sentir necessidade de relacionar-se afetivamente com alguém e ser heterossexual.

     Liberdade / Escolha: depende do quão o indivíduo é maduro/saudável/consciente de si, quanto mais inteiro e psicologicamente independente; mais estará ‘livre’ para escolhas conscientes, inclusive aceitar que em sua escolha, se é responsável por ela, e se abre mão de outra possibilidade. Sob o ponto de vista sociológico, o termo ‘Escolha’ (ou também liberdade), é geralmente associado com os costumes sociais que incorporamos sem percebermos e sem uma boa crítica do mesmo. Mas aqui, nessa proposta, liberdade diz respeito a saber abrir mão do que deixará de fazer

Menos análise, menos crítica, mais vivência, mais sabor: A Liberdade é Azul Kieslowski Crítica Análise.

     As palavras análise e crítica podem ser substituídas por acolhimento e apreensão, assim se vivencia mais profundamente e amplamente aquilo que vem ao nosso encontro, nesse caso, claro, a arte, a emoção. Por isso a obra de arte que permanece no tempo é aquela que, em palavras singelas, “tocou nosso coração”.

Bacellart Psicólogo

Abordagem: Fenomenologia existencial (Heidegger) e simpatia pela Psicanálise do amadurecimento de Winnicott. Se necessário, orientação comportamental de terapia breve.

Aluno convidado, doutorado USP (Gilberto Safra) e PUC (Zeljko Loparic).

A Liberdade é Azul Kieslowski Crítica Análise.

Consultório Av. Paulista, Jardins, Cerqueira César, Bela Vista, Jardim Paulista. Metrô Consolação ou Masp/Trianon.

Possibilidade de entrevista para TV, rádio, revista e jornal.